Sobre as calçadas

23, fevereiro, 2009 - Leave a Response

Aqui em Itapuã as calçadas recebem um apelido carinhoso, como na maior parte de Salvador, são o nosso ‘passeio’. Dei risada na primeira vez que ouvi. Mas logo me acostumei e passei a ter o relacionamento achegado que a maioria dos moradores de Itapuã tem com as ruas. O passeio é reservado para momentos específicos, quando se é necessário dividir a rua com os carros. Em todos os outros momentos, é espantoso, as ruas pertencem aos pedestres. Os espaços públicos são das pessoas, os carros, motos, ônibus e bicicletas que se adaptem a isso.

O bairro cresceu, cada dia mais carros passam por aqui, até as ruas mais escondidas viraram atalhos para fugir dos engarrafamentos. Mas quem se importa com isso? Não os que aqui moram, os passeios são para os dias de domingo, para os momentos onde não é possível se andar como se andava quando não havia carros, no meio da rua. Mesmo os mais acostumados a andar na calçada acabam adotando o costume local. Certa vez ouvi uma pessoa dizer quando um carro buzinou pedindo para passar: “Tenha calma, você está em Itapuã!”.

Aqui nos sentimos à vontade nas ruas, como se todo dia fosse dia de lavagem de das escadarias da Igreja e as ruas pertencessem somente às pessoas. Os passeios, quando existem, parecem receber tratamento especial das pessoas, são varridos todos os dias e pouco usados. É fácil achar um Itapuãense por outros cantos da cidade, são aqueles que teimam em aceitar que as ruas não pertencem mais a eles, são aqueles que volta e meia se pegam andando no meio de ruas mais movimentadas se esquecendo que não estão em Itapuã.

Tudo isso pode parecer desrespeito às leis de trânsito, ignorância ou até mesmo teimosia. Mas faz parte dos costumes de um bairro que cresce sem querer, faz parte das pessoas que moram tanto tempo aqui que já se apropriaram dos lugares como pessoas da família. O mais incrível é que os moradores daqui não se dão conta disso, é preciso ser alguém de fora para notar todas essas nuances e entendê-las. Demorei a captar o espírito da coisa, mas uma vez acostumado, não se quer outra coisa, infelizmente, para os carros.

Itapuã – Introdução

18, fevereiro, 2009 - Leave a Response

Itapuã não é só uma praia ou um bairro, é um estado de espírito. Acordamos com o cheiro do mar batendo na janela e tudo parece estar onde deveria. A verdade está muito além disso, mas isso parece não importar. É fácil ignorar os problemas olhando para o mar verde-azul tranqüilo. Sempre tem alguma música viajando pelo ar e chegando aos nossos ouvidos, popular, colorida e vibrante, como o dia que acaba de começar e promete muitas boas histórias para serem contadas. Como a da baiana da esquina que já está ali há tanto tempo que virou ponto de referência, como a da lagoa escura que esconde mistérios, como a de todas as pessoas que descem e sobem as ladeiras com o olhar perdido nos pensamentos, cantarolando uma velha canção, conversando com os amigos e que tornam tudo isso possível. Olhar pela janela aberta não apenas por uma tarde é um convite irrecusável, aceite e veja o que vejo e que vai muito além  dos lindos pontos turísticos e do que se passa nos jornais, o cotidiano alheio e que faz parte desse estado de espírito, inexplicável.

Dos meus vizinhos desconhecidos preferidos

16, fevereiro, 2009 - Leave a Response

Me acostumei a observá-la no dia-a-dia, nas coisas mais normais da vida. Acordar, fazer café, cuidar dos netos, lavar roupa… Me entretia com as brigas e com os jogos que os meninos inventavam. Bastava um pedaço de maderit sob duas cadeiras e tábuas de carne para jogar ping-pong. Conhecia de cor a rotina da casa e o nome dos netos por a ouvir chamá-los. Era como uma verdadeira novela da vida real, sem câmeras nem direção para disfarçar as coisas ruins e boas. Me interessava em cada um daquela pequena família como a um dos meus próprios. Ir para a varanda tomar um café era como sentar na sala e ligar a tv. Amava conhecer tão bem e me saber completamente desconhecida para eles. Várias vezes topei com algum deles na rua e tive vontade de me apresentar, mas logo desistia, acabaria com a magia, eles me descobririam no cantinho da varanda os observando. Hoje me arrependo de não o ter feito, se mudaram, não sei como estão nem onde estão. Não tomo mais café na varanda, me dá tristeza ver a casa vazia, sem barulho, morta…

vizinhos

Piano

11, novembro, 2008 - Leave a Response

Gosto do som do piano em qualquer música, quase vejo os sons graves e agudos se desenhando no ar e formando a melodia, não importa de que música, rica. Decidi que queria aprender a tocar piano quando tinha apenas 7 anos, queria um daqueles pianinhos de madeira que não se fazem mais hoje para as crianças. Meus pais não puderam me dar um até a minha vontade de ter um piano de brinquedo passou, aí eles não puderam me dar um de verdade. Nunca quis teclado, coisa mais sem graça, sempre pensei no teclado como um papagaio que só faz repetir sons de outros instrumentos. Nele, o som do piano perde todas as vibrações, os sentimentos, as notas não se desenham no ar. Às vezes esqueço que já está tarde demais para aprender um instrumento tão complexo (não se esqueçam que ele também tem pedais!) e sonho músicas imaginárias que magicamente conseguiria tocar quando sentasse na frente de um piano. É bom querer algo que só terei tempo e dinheiro para me dedicar quando me aposentar…

piano

Cenas Cotidianas I

4, novembro, 2008 - Leave a Response

Ela ia à casa da avó com uma amiga. Tinha tomado banho e se perfumado com alfazema. Colocou sua sandália menos velha, a única saia que tinha e uma camisa de abadá colorida. Aposto que seu nome era Maria. Tão pequena e simples, e assim se achava tão linda que perguntou à amiga:

– Até parece que vou pra uma festa, né?!

Com ou sem farda

16, outubro, 2008 - Leave a Response

O mar vai e vem em minha frente, sei que isso nunca deixará de acontecer, que nos meus olhos ele é verde, mas fica dourado vendo o sol desaparecer, ali mesmo por trás dos coqueiros.

Alguém vem e me pede dinheiro e eu finjo não entender português para não sustentar o vício. Odeio quem se aproveita dos filhos para isso. Coloco meus pés para cima e deixo a cerveja escorrer pela minha boca levando esse gosto de maresia.

Os meninos brincam de malabares com garrafas na areia da praia como se fossem servir um drink especial. Para sonhar não é preciso tirar a farda. Eles ignoram que os observo e tomo nota. As garrafas voam como se nunca tivessem feito outra coisa.

Uma música popular começa a tocar, as pessoas gostam, se divertem. Como será que esse caldo de sururu foi feito? Uma onda vem e leva o castelo de areia. Também não é preciso tirar a farda para bater um baba na praia.

Durante a semana tudo tem mais tranqüilidade, com ou sem trema. Mas não tentem tirar ela de mim, nessa mais uma tarde em Itapuã.

Cena surreal da semana

9, outubro, 2008 - Leave a Response

Ela devia ter uns 6 anos e chutava a placa com vontade dizendo: eu não gosto de você. Detalhe, a família estava do lado de fora conversando numa boa, como se nada estivesse acontecendo, e me lembro claramente de ter visto essa placa de vereador pendurada naquela mesma casa um dia antes.

Sobre insetos e homens

29, setembro, 2008 - Uma resposta

Ela nunca teve medo de animal algum. Matava baratas sem pena enquanto sua irmã gritava em cima de uma cadeira. Ela gostava de usar isso para perturbar os outros. Quando sua mãe queria cozinhar caranguejos era ela que matava e limpava, só para depois sair correndo atrás de sua irmã com um caranguejo morto na ponta da faca e ver ela fugir gritando.

Um dia ela viu uma ratazana enorme tentando entrar no portão de uma casa. Não pensou duas vezes, pegou uma pedra e com mira certeira matou a ratazana. Um homem que passava achou bom:

– Isso mesmo, inseto tem que morrer!

A resposta veio na hora:

– Rato é mamífero!

O moço deu um sorriso sem graça enquanto saia de banda, seus irmãos que vinham logo atrás não continham as risadas.

Na calada da noite, muito barulho

15, setembro, 2008 - Leave a Response

Transportes alternativos são a única opção para quem decide voltar realmente tarde para casa e sempre são uma aventura à parte, geralmente fechando a noite com algo surreal.

Nunca se espera encontrar alguém religioso, cheio de piercings e tatuagens, bêbado, como foi naquele dia.

– Jesus vai entrar em você. Tudo que temos é material e pouco importa.

– Então me dê esse boné aí.

– Você quer?

– Quero.

– Então toma, ele não quer dizer nada. Jesus vai entrar em você não pelo boné, mas pelo coração.

Enfim, descobrimos que o boné devia custar uns 50 conto, original cheio das etiquetas. Pelo menos cobria as despesas da noite. Quando ele saiu da topic deu um alívio, ele dava medo.

Os garçons que saem do trabalho cheios de energia e morrendo de sono sempre nos dão boas risadas. Observo tudo, claro, contendo o riso.

– Ei, véi, vamo no puteiro – claramente brincando.

– Bora.

– Tenho que gastar meu salário com algo pra mim.

– Mas você nem agüenta sentado.

– Esse trabalho acaba comigo.

– Olha lá o outro dormindo.

– Ei, véi, acorda, man. A topic vai virar pra esse lado se ele continuar babando desse jeito com a cabeça na janela desse jeito.

– Acorda aí – dando um tapa no dorminhoco.

– Acorda, véi, já tamo no fim de linha.

– Hã, hein. Já chegamos? – daí se dá conta que não – Véi, cuida da sua vida, ainda não ta nem na metade do caminho. Você é meu despertador por acaso? Me deixa em paz!

Todo mundo ri e a viagem continua. Daí entra outra figura na van.

– Essa lei seca é uma merda. Tudo que você tem na vida é um só. Esses caras tomam seu carro e você fica como? A pé. Eles não respeitam a propriedade de ninguém. Porque tudo que você tem na vida é um só – claramente bêbado.

– Com certeza.

– É isso aí, véi.

– Televisão, dvd, casa, carro, tudo que você tem é um só. Se você bater ou roubarem já era. Tudo que temos é um só.

– Também acho.

Eu cochicho:

– Na casa da minha mãe tem 3 tvs e 3 dvds e conheço um monte de gente que tem dois carros e casas.

– Cala a boca, amor. Não procura confusão com maluco.

– Mas eu não procuro, eles é que me acham.

Me calo, mas tem o silêncio da noite e o barulho das vozes, daí a brisa forte do mar invade tudo. A lua parece estar pegando fogo e a luz distante do farol indica o caminho seguro de casa.

Transportes alternativos são a única opção para quem decide voltar realmente tarde para casa e sempre são uma aventura à parte, geralmente fechando a noite com algo surreal.

Nunca se espera encontrar alguém religioso, cheio de piercings e tatuagens, bêbado, como foi naquele dia.

– Jesus vai entrar em você. Tudo que temos é material e pouco importa.

– Então me dê esse boné aí.

– Você quer?

– Quero.

– Então toma, ele não quer dizer nada. Jesus vai entrar em você não pelo boné, mas pelo coração.

Enfim, descobrimos que o boné devia custar uns 50 conto, original cheio das etiquetas. Pelo menos cobria as despesas da noite. Quando ele saiu da topic deu um alívio, ele dava medo.

Os garçons que saem do trabalho cheios de energia e morrendo de sono sempre nos dão boas risadas. Observo tudo, claro, contendo o riso.

– Ei, véi, vamo no puteiro – claramente brincando.

– Bora.

– Tenho que gastar meu salário com algo pra mim.

– Mas você nem agüenta sentado.

– Esse trabalho acaba comigo.

– Olha lá o outro dormindo.

– Ei, véi, acorda, man. A topic vai virar pra esse lado se ele continuar babando desse jeito com a cabeça na janela desse jeito.

– Acorda aí – dando um tapa no dorminhoco.

– Acorda, véi, já tamo no fim de linha.

– Hã, hein. Já chegamos? – daí se dá conta que não – Véi, cuida da sua vida, ainda não ta nem na metade do caminho. Você é meu despertador por acaso? Me deixa em paz!

Todo mundo ri e a viagem continua. Daí entra outra figura na van.

– Essa lei seca é uma merda. Tudo que você tem na vida é um só. Esses caras tomam seu carro e você fica como? A pé. Eles não respeitam a propriedade de ninguém. Porque tudo que você tem na vida é um só – claramente bêbado.

– Com certeza.

– É isso aí, véi.

– Televisão, dvd, casa, carro, tudo que você tem é um só. Se você bater ou roubarem já era. Tudo que temos é um só.

– Também acho.

Eu cochicho:

– Na casa da minha mãe tem 3 tvs e 3 dvds e conheço um monte de gente que tem dois carros e casas.

– Cala a boca, amor. Não procura confusão com maluco.

– Mas eu não procuro, eles é que me acham.

Me calo, mas tem o silêncio da noite e o barulho das vozes, daí a brisa forte do mar invade tudo. A lua parece estar pegando fogo e a luz distante do farol indica o caminho seguro de casa.

Porque eu sou mais elas e ele também…

27, agosto, 2008 - Leave a Response

Desapercebido

11, agosto, 2008 - Uma resposta

Eu quero ver o passado de longe
E perceber a distância aumentar,

Lá: histórias contadas por outros
Como se não nelas tivesse vivido
Como se o rosto nas fotos não fosse o meu
E observar como estranha os familiares,
Reinventar antigas impressões,
Medindo o tempo com novas medidas,
Querer com novas intensidades,
Vendo a beleza nos pequenos detalhes,
Sendo tudo uma novidade,
Assim simples e sem querer

Da vida real

7, agosto, 2008 - Uma resposta

Aqui de cima tudo parece calmo. As pessoas levando suas vidas como se não esperassem nenhuma tempestade, nem a conta de luz no fim do mês. Baiana, me vê um acarajé bem caprichado! A cervejinha gelada espera na geladeira. O mar está tão bonito hoje. O sol se pondo atrás dos coqueiros que balançam com o vento… Ruan! Ruan! Volta aqui sua peste! O menino soltando bomba e assustando a moça que passa voltando da padaria. O pão quente no saco de pão de papel. Vó, quero pastel de queijo. Lá longe os carros passam, e os ônibus lotados parecem barcos simplesmente seguindo o fluxo do rio. As pessoas que chegam cansadas do trabalho, cada uma pensando numa coisa diferente, e eu aqui imaginando o que seria. Olha a quebradeira da Bahia. Vivo mais um pouco imaginando a vida dos outros, ouvindo o que acontece como se assistisse tv, mais ao vivo que isso impossível.

Crônicas indianas – Parte II

2, agosto, 2008 - Leave a Response

by Rafael Rogel

Mobilidade

30, julho, 2008 - Leave a Response

As mangas faziam um mar sob o pé, mas os meninos as ignoravam completamente pelas mangas dos galhos mais altos, quase inalcançáveis. A aventura era ir cada vez mais alto, quando desse, bulir no ninho do passarinho, dar um grito quando pegasse a manga e jogar para alguém lá em baixo pegar. Quase sempre quem estava lá em baixo conseguia pegar a fruta que caia, mas a diversão de quando não se conseguia no geral era mais entusiástica. Todos lambuzados e cansados, não restava outra alternativa a não ser um saltos no lago. O mais esquisito ganha, ou seja, o que jogar mais água pra fora. Nessa hora os gordinhos tinham a desforra, apesar de serem só os pegadores das mangas e nunca os que subiam nos galhos mais altos, eles davam saltos espetaculares e todos os meninos davam gritos esfuziantes. Eu observei esse quase cerimonial todos os dias daquele verão, me deliciava na alegria leve deles, dava nome a cada um dos moleques e já tinha me apegado a eles. Da minha janela a visão da mangueira e do lago era perfeita e eu invejava os meninos que conseguiam andar e correr.

Alvorada

28, julho, 2008 - Leave a Response

Quem tem aula às 7 hr ou só pega no trabalho às 8 não faz idéia da vida nas ruas da cidade às 5. Eu me surpreendi quando descobri, quando me tornei um dos muitos que deixam a cidade para trabalhar. Ônibus e seus pontos cheios, o frio que faz e que quem dorme não idéia que faz aqui nessa capital baiana. E ainda o café e mingau quentes na esquina, bem como o lixo, moradores de rua e vira-latas acumulados nos cantos.

Não gosto de ver os pombos em todos os lugares consumindo e produzindo sujeira, muita sujeira. Gosto de ver as últimas estrelas se apagarem, só assim sinto que o dia realmente começou. O cheiro dessa hora em especial é diferente do de qualquer outra hora, está entre o indizível e o surreal, aconselho aos curiosos que acordem mais cedo e experimente já que nenhuma descrição o contemplaria.

Tudo isso me comoveria se não estivesse sempre com tanto sono, lutando para manter os olhos abertos para não perder meu ônibus. Mas o que gosto mesmo é da companhia quentinha de quem acorda cedo sem precisar só para estar ao meu lado, segurar minha mão e me desejar um bom dia. Ah! Amo quem sabe fazer a diferença e como o amo! Essa minha rotina das alvoradas e de tantas outras pessoas…

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