Ontem ela estava querendo gritar e gritou até esvaziar os pulmões de todo aquele ar sufocante. Sentia que todo aquele excesso era o que incomodava, quanto mais simples melhor, definitivamente. Apagou o que tinha escrito na parede já que não adiantava denunciar tão simples amor daquela maneira. Seria tão mais fácil viver todo aquele sentimento silenciosamente, sem excessos, lenta e simplesmente. Hoje ela acordou com uma secreta satisfação, ser feliz era simples mesmo, mesmo que só um pouco.
17:52 ou oito para as seis
O que eu queria escrever não importa mais agora. Eu quero muita coisa, mas quando escrevi coloquei o verbo no passado por engano… Agora já foi, no passado também. Ela está aqui me cutucando, dizendo que as palavras não precisam ser tão irremediáveis assim. Desculpa, mas tenho andado com pessoas muito fatalistas ultimamente (observe o tempo verbal). Inevitável, como aquelas certezas absolutas. Então ignoro os gritos dela e mudo completamente a idéia original para uma descrição dum certo eu lírico vaca meio-lobisomem que quer dominar o mundo, mas só sai da acomodação na literatura mesmo. Ta e daí que ninguém vai entender? Alguém manda ela calar a boca que não estou conseguindo me concentrar! Voltemos à vaca-lírica… Ela ainda quer alguma coisa e sabe o que é: um grampeador que pode virar imã de geladeira ou qualquer coisa em noite de lua cheia, mas nada que a ajude muito a alcançar seu alvo. A vaca sabe de todas as centenas de possibilidades inúteis à sua frente e não desiste de nenhuma delas sem tentar. Engraçado, alguém tinha que vencer o medo né?! Ela ta aqui sussurrando que preferia que outras pessoas fossem assim. Mas pense bem, antes uma vaca com objetivo que nada. Só mais uma perguntinha, ou melhor, algumas: Quantos estômagos tem uma vaca? Quantos minutos duram um dia inteiro? Quem disse que nada é para sempre? Ah! Uma resposta: alguém me disse que é bom ser impulsivo. Mas de acordo com o Neil Gaiman “as pessoas que crêem no que seus gatos lhes dizem merecem tudo o que conseguem”.
Peguiça elevada à décima potência
De uma agonia indizível vêm essas palavras à tona. Eu nunca me senti assim nas férias, mas o tempo parece tão curto diante de tudo que quero fazer e tenho que (ô vida de escolhas limitadas), poderia ignorar tudo isso daquele jeito irresponsável que tenho me acostumado a ver nos outros, mas eu não funciono assim. Odeio fazer qualquer coisa sob pressão, o pior é que a única coisa que me pressiona sou eu mesma, me colocando nessa posição de fazer tudo no menor tempo possível, quando as férias deveriam ser para nada disso. Quero viajar de novo, sem preocupação nenhuma na casa de qualquer um onde não tenha nenhuma obrigação. Apesar de ter certeza de que esses momentos sem fazer nada não farão o menor sentido se não fizer nada o tempo todo.
Aqüífera
Lá do alto ela olhava desconsolada, tinha esperado por tantos anos. Abaixo assinado. Visita a prefeitura. Horas em pé. A água finalmente jorrava aos montes na sua rua. Mas não subira a ladeira. Restava pegar os baldes e entrar em mais uma fila, a que poderia ser sua última. Gostava de pensar que a espera era por um tipo de água que nunca acabaria, que nunca mais precisaria subir ladeira com balde na cabeça umas 20 vezes por dia. Cantava aquela marchinha triste e esperava, e subia, e carregava, e existia, e… Largou o balde, deixou cair a água sob seus pés. Correu o mais rápido que pode, deixando tudo para trás. Mas tudo a seguia para onde quer que fosse. A ladeira, a água, os pés, o peso…
(untittled)
… enquanto a gente falava uma grande corrente elétrica de compreensão verdadeira corria entre nós e eu sentia os outros níveis um número infinito de níveis de toda entonação da fala dele e da minha e o mundo de significados que havia em cada palavra…
- Jack Kerouac em Os Subterrâneos
No primeiro dia as coisas pareciam que sempre tinham sido assim. Engraçado, nada extraordinário, excepcional ou assustador. Apenas a sensação de conforto e de ser. A vida não devia mesmo ser sempre assim? Ela havia previsto que seria assim tanto tempo antes. Intuição feminina, ela dizia. Destino, ou qualquer coisa assim, afirmava ele ou não. Concordando ou não eles sabiam: sentimos a mesma coisa. A comunicação era no olhar e o resto pouco importava. Tem um arroz no fogo, cheirinho de alho e cerveja Weiss na geladeira, além da certeza absoluta de milhares de anos futuros… Na verdade, pelo menos até o fim dessa semana.
(BLOG EM MANUTENÇÃO) Querendo mudar tudo por aqui, já que me mudei, fico fora por mais um tempo, volto com tudo novo denovo, assim que der…
Crônicas Indianas – Parte I
No tempo de lá longe, quando as pessoas não escolhiam com quem casavam, as crianças não corriam o risco de ser atropeladas nas ruas, e amavam a hora de ir para a cama, só porque significava ouvir uma boa história, o cheiro das especiarias embriagava o ar tornando a vida mais suave como a leve neblina que cobria as colinas naquele dia. Nesse tempo-espaço leve entre as montanhas indianas uma jovenzinha aprendeu a observar o céu.
A mais nova de cinco irmãs e três irmãos, ela aprendeu cedo o que é dividir, não possuía nada que pudesse ser propriamente chamado de seu. Nem mesmo seu nome, que era extremamente comum e qualquer um poderia atender no seu lugar quando chamada. Mas não era menos feliz por isso, nem pensava por um instante em como seria ser sozinha. Ela entendia que tudo existia mesmo para ser partilhado.
A pobre menina era rica em raciocínio e em sua simplicidade se bastava. Sabia a simplicidade como uma conseqüência do raciocínio humano, lição que não entendemos assim tão facilmente. Bem, ela tinha o que comer e com o que se vestir, muito belamente por sinal. A pequena enfeitava sua túnica branca com flores púrpuras colhidas no campo, beijos de sol como gostava de chamar. Via nelas a forma da natureza compartilhar sua beleza com os homens e se sentia toda beijada de sol.
Às vezes um sentimento estranho tomava conta dela, uma sensação de que era estranha ali. O que era muito próprio já que ela era a única de suas irmãs, ou melhor, de toda a cidade que percebia os novos ventos que chegavam e traziam aquele perfume agridoce ao ar. Como o cheiro é composto de partículas depreendidas, aquilo tinha que significar alguma coisa, algo estava por vir… Ela sentia, todo dia ao observar o céu, junto com as nuvens rosa-alaranjadas do fim da tarde e neblina densa que ultimamente pairava sob as colinas
2. O direito de saltar páginas.
Daniel Pennac (Os direitos inalienáveis do leitor)
Oásis
Desenhei com todas as letras
o meu amor bem disposto,
queria ele encontrar descanso
num peito deserto qualquer;
Deserto?
Só multidão indo e vindo
foi o que encontrei,
sentimentos diversos,
luta de vontade e quereres
de vida repleta de falta e sentido;
Não precisei aprontar caminho,
nem abrir estrada,
foi-me colocada uma mesa
bem servida,
lápis de todas as cores,
para terminar meu desenho,
Quer saber como ficou?
Lindo!
Ode às longas caminhadas
I like it in the city when the air is so thick and opaque
I love to see everybody in short skirts, shorts and shades
I like it in the city when two worlds collide
You get the people and the government
Everybody taking different sides…
Carta
Eu queria trazer-te uma imagem qualquer
para os teus anos…
Oh! Mas apenas este vazio doloroso
de uma sala de espera onde não está ninguém…
É que,
longe de ti, de tuas mãos milagrosas
de onde meus versos voavam – pássaros de luz
a que deste vida com seu calor –
é que longe de ti me sinto perdido
– sabes? –
desertamente perdido de mim!
Em vão procuro…
mas só vejo de bom, mas só vejo de puro
este céu que eu avisto da minha janela.
E assim, querida,
eu te mando este céu, todo este céu de Porto Alegre
e aquela
nuvenzinha
que está sonhando, agora, em pleno azul!
Mario Quintana
A tsunami

A grande onda de Kanagawa pelo artista japonês Katsushika Hokusai
Ao tempo VII
A chuva pesada e lenta,
[venta]
Caiu na hora certa,
Ainda não parou,
Saudade traduzida,
Em cada gotícula…
Olha o tempo lá!
Em todo acordo,
[conforto]
Elementos químicos,
No papel que não é eterno,
[efêmero]
Sempre contam…
Floresta noturna
Quando a porta se abriu e aquele urso enorme me recebeu com um abraço senti uma pontinha de medo, todo urso guarda dentes afiados apesar do olhar cativante. Ainda bem que sempre tem a mão quente para me dizer: calma, isso é só ficção. Daí uma hamster me veio dizer que era bem vinda e que podia ficar à vontade. Ela me contou a história dela, de como se sentia presa sem o ursão para empurrar sua rodinha de criatividade e sentimento, achei parecida com a fábula do leão e do ratinho, registrei tudo para a posteridade. Esopo está ficando ultrapassado.
O sofá era bom de deitar e, por ser uma cama, dava vontade de falar coisas que só se falam para amigos em festa de pijama. Pipocas se fizeram e no meio daquela neblina chegou a coruja, por si só sábia e necessária, se fazendo presente no canto da janela, observando tudo como quem escreve mentalmente em latim clássico e traduz pro braulês na hora de falar para se fazer entendida, ou não.
Sabe o que sua mãe sempre te disse para fazer antes de falar? A piriquita não fazia nunca. Às vezes parecia canto, às vezes grito de desespero, às vezes risada, e na maioria das vezes compulsão mesmo. Voando de um lado por outro, soltando penas e flashes, fazendo todos na clareira a acompanhar, e, de certa forma, unindo todos, ela exibia-se faltando um pedaço para quem quer que chegasse.
Não era fácil sair de minha cartola segura. Ali tinha dentes, música, mão quente, pipoca, rodas, neblina, poleiro e penas. Vivia me perdendo e me achando por dentro e por fora, em todos os sentidos. Então quando a porta se fechou atrás de mim soube que voltaria algumas outras vezes.
p.s.: Agradecimentos especiais para Ana C. pelo título.
Fim-de-semana, literalmente
Lá fora tem a lua sorrindo para baixo como aquela menina que exibe o mesmo rosto em todas as fotos desde a 5ª série. O jabuti (aprendi recentemente que cágado não é jabuti) está escondido na umidade de seu esconderijo de telha. As plantas parecem que se alimentam do sereno sereno. Então as pessoas vão chegando como se voltassem para casa depois de um dia cansativo, se espalham por todos os cantos e, como bons amigos que são, ignoram a poeira que não tirei encostada por lá também. Daí todo mundo concorda que se tivesse sido combinado todo mundo não tinha se encontrado. O obvio? Pipoca e risadas. Amo amigos que sabem ser precisos sempre que preciso deles.