Aqui em Itapuã as calçadas recebem um apelido carinhoso, como na maior parte de Salvador, são o nosso ‘passeio’. Dei risada na primeira vez que ouvi. Mas logo me acostumei e passei a ter o relacionamento achegado que a maioria dos moradores de Itapuã tem com as ruas. O passeio é reservado para momentos específicos, quando se é necessário dividir a rua com os carros. Em todos os outros momentos, é espantoso, as ruas pertencem aos pedestres. Os espaços públicos são das pessoas, os carros, motos, ônibus e bicicletas que se adaptem a isso.
O bairro cresceu, cada dia mais carros passam por aqui, até as ruas mais escondidas viraram atalhos para fugir dos engarrafamentos. Mas quem se importa com isso? Não os que aqui moram, os passeios são para os dias de domingo, para os momentos onde não é possível se andar como se andava quando não havia carros, no meio da rua. Mesmo os mais acostumados a andar na calçada acabam adotando o costume local. Certa vez ouvi uma pessoa dizer quando um carro buzinou pedindo para passar: “Tenha calma, você está em Itapuã!”.
Aqui nos sentimos à vontade nas ruas, como se todo dia fosse dia de lavagem de das escadarias da Igreja e as ruas pertencessem somente às pessoas. Os passeios, quando existem, parecem receber tratamento especial das pessoas, são varridos todos os dias e pouco usados. É fácil achar um Itapuãense por outros cantos da cidade, são aqueles que teimam em aceitar que as ruas não pertencem mais a eles, são aqueles que volta e meia se pegam andando no meio de ruas mais movimentadas se esquecendo que não estão em Itapuã.
Tudo isso pode parecer desrespeito às leis de trânsito, ignorância ou até mesmo teimosia. Mas faz parte dos costumes de um bairro que cresce sem querer, faz parte das pessoas que moram tanto tempo aqui que já se apropriaram dos lugares como pessoas da família. O mais incrível é que os moradores daqui não se dão conta disso, é preciso ser alguém de fora para notar todas essas nuances e entendê-las. Demorei a captar o espírito da coisa, mas uma vez acostumado, não se quer outra coisa, infelizmente, para os carros.