Crônicas Indianas – Parte I

No tempo de lá longe, quando as pessoas não escolhiam com quem casavam, as crianças não corriam o risco de ser atropeladas nas ruas, e amavam a hora de ir para a cama, só porque significava ouvir uma boa história, o cheiro das especiarias embriagava o ar tornando a vida mais suave como a leve neblina que cobria as colinas naquele dia. Nesse tempo-espaço leve entre as montanhas indianas uma jovenzinha aprendeu a observar o céu.

A mais nova de cinco irmãs e três irmãos, ela aprendeu cedo o que é dividir, não possuía nada que pudesse ser propriamente chamado de seu. Nem mesmo seu nome, que era extremamente comum e qualquer um poderia atender no seu lugar quando chamada. Mas não era menos feliz por isso, nem pensava por um instante em como seria ser sozinha. Ela entendia que tudo existia mesmo para ser partilhado.

A pobre menina era rica em raciocínio e em sua simplicidade se bastava. Sabia a simplicidade como uma conseqüência do raciocínio humano, lição que não entendemos assim tão facilmente. Bem, ela tinha o que comer e com o que se vestir, muito belamente por sinal. A pequena enfeitava sua túnica branca com flores púrpuras colhidas no campo, beijos de sol como gostava de chamar. Via nelas a forma da natureza compartilhar sua beleza com os homens e se sentia toda beijada de sol.

Às vezes um sentimento estranho tomava conta dela, uma sensação de que era estranha ali. O que era muito próprio já que ela era a única de suas irmãs, ou melhor, de toda a cidade que percebia os novos ventos que chegavam e traziam aquele perfume agridoce ao ar. Como o cheiro é composto de partículas depreendidas, aquilo tinha que significar alguma coisa, algo estava por vir… Ela sentia, todo dia ao observar o céu, junto com as nuvens rosa-alaranjadas do fim da tarde e neblina densa que ultimamente pairava sob as colinas

 

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2. O direito de saltar páginas.

 

Daniel Pennac (Os direitos inalienáveis do leitor)

 

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