Das mídias da vida

Saindo das vias principais de qualquer lugar, o ócio conturbado se espalha nas entranhas de cada um que não pode exercê-lo plenamente. Como com ela naquele banco de praça observando tudo, descrevendo mentalmente vidas e paisagens, desejando o que não lhe pertencia com a mesma determinação com que se pede um último beijo.
As pessoas irritadas, preocupadas, se popam o trabalho de reparar. Mas o amor é feito de detalhes, viu num programa uma vez e a televisão mente jamais. Decidiu se deter em todos os detalhes. Para ser amado é preciso ser alguém para ser amado, leu num livro e livros sempre têm razão. Quis que com ela fosse assim.
Daí prestar atenção nos detalhes amáveis dos outros, aquele jeito de mecher no cabelo daquela morena linda e o sorriso da menina da sorveteria, era muito importante. Assistiu num filme que um cara tomou o lugar de outro imitando seus jeitos para ter o que o outro tinha. Podia fazer isso também, sem, contudo, tomar lugar de ninguém, para ter o que queria. Já que o cinema só diz a verdade.
Daí tinha mesmo que ver tudo e escolher o que ser. Como se as coisas fossem fáceis assim ela decidiu ser ruiva, com o sorriso misterioso de quem nunca diz tudo, ter um gosto apurado para jazz e vinho, saber tudo de literatura estrangeira, mudar seu nome para Débora, ser amante de coisas antigas e de nuvens, bem como das cores outonais, se vestir apenas de verde e nunca cortar a palavra de alguém.
Ela, agora Débora, sabia mais que ninguém o poder da mudança e queria ser o que atraísse quem ela queria. Mas não tinha jeito, do jeito que tinha escolhido ser só atraia homens estranhos, com um quê de masoquistas e alter-ego bukowskiano. Assim aprendeu a nunca confiar na tv, nos livros e no cinema.

2 Responses

  1. Os livros de Bukowski nunca mentem! A vida é igualzinha a um de seus contos, e que delícia de vida, que delícia de conto, que delícia de estória, que maluquice!

  2. P0w! Jogô serto aih na idéa, vú? Num quebre mais nada pra nao toma escalde, vu?

    fui

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