Quimeras Eternas

Tinha a capa lilás com um símbolo dourado. O papel quase se desfazia entre os dedos, mas era de uma riqueza de detalhes impressionante. Atraía. Tropeçara nele indo do ponto para a escola e não entendia como um livro daquele tinha ido parar ali, no meio da rua. Talvez alguém tenha perdido, ou simplesmente deixado para alguém que estivesse passando distraído indo para a escola…
Procurando por uma resposta racional lembrou que ultimamente tinha ouvido falar de uma campanha que consistia em deixar algum livro em lugares públicos para quem o encontrar ler e deixar também no mesmo local ou em outro qualquer, outro livro. Quanta confiança na humanidade! Quase inacreditável que ela poderia ser contemplada. Afinal, só podia ser isso. A muito decidira não acreditar em coisas inacreditáveis.
A curiosidade conseguiu ser maior que a preguiça de ler. Nunca tinha lido nada parecido. Nunca tinha lido nada além do fundo das caixas de cereal no café da manhã. Absurdo! Lembrou-se até de quando tinha tentado um Shakespeare ou dois, um James Joyce, um Guimarães Rosa e um Tolkien. Tudo acabou ficando na tentativa mesmo.
Durante a noite o sono veio logo, mas nem parecia. Suspense.
Aquela sensação de estar vendo tudo da janela do ônibus. Sentia até o sacudir do motor e o barulho da gente. Agitação. O mesmo caminho de ida e volta para a escola todos os dias. Pela praia vendo o mar, especialmente azul profundo. O bairro que mais gostava de ver passar era o que passava mais rápido, com todos os bares coloridos que exalavam vida mesmo fechados, com um grande largo e duas igrejas. Sempre tinha gente interessante passando. Histórias boas de imaginar.
Acabara de perceber que a maré estava cheia e que as ondas vinham certas de encontro à mureta. Uma menininha se banhava de luz ali como se tivesse nascido dentro do mar. Linda, de calcinha branca. Daquela inocência pura somente possível nas primeiras idades. Para tocar os dedos da menina as baleias chegavam pertinho da areia, com certeza roçavam suas barrigas. Uma família de baleias! Todo mundo parava para tirar fotos e tentar brincar com elas, com a menina e as baleias.
O ônibus até passara mais devagar, mas passara. Chegou em casa entusiasmada para contar a todos o que tinha visto. Mas lhe faltaram palavras. Tentou se concentrar na novela que passava na televisão, no café que se punha na mesa, na mãe que falava sem parar sobre como o preço das coisas tinham subido… Em vão.
De manhã, a mãe a acordara para suas tarefas diárias. A impressão que tinha é que algo extraordinário tinha acontecido naquela noite. Tinha que contar a todos o que tinha visto. A imagem era tão real! Resolveu terminar de ler o livro para procurar as palavras certas. Ali estavam uma a uma, as que queria, nas que ainda não tinha lido. Absurdo! No dia seguinte uma menininha se surpreendeu com um livro de capa lilás na mureta da praia que freqüentava desde que se entendia por gente.

One Response

  1. Os sonhos definitivamente são processos bem interessantes. E o mais legal é que tu escreve muito bem. Acredite, são poucas as pessoas que conseguem mexer com elementos quiméricos e se sair bem.

    E, para não perder o costume: enfim…

    bjs bjs

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