O fotógrafo

Difícil fotografar o silêncio.
Entretanto tentei. Eu conto:
Madrugada a minha aldeia estava morta.
Não se ouvia um barulho, ninguém passava entre as casas.
Eu estava saindo de uma festa.
Eram quase quatro da manhã.
Ia o Silêncio pela rua carregando um bêbado.
Preparei minha máquina.
O silêncio era um carregador?
Fotografei esse carregador.
Tive outras visões naquela madrugada.
Preparei minha máquina de novo.
Tinha um perfume de jasmim num beiral de um sobrado.
Fotografei o perfume.
Vi uma lesma pregada mais na existência do que na pedra.
Fotografei a existência dela.
Vi ainda azul-perdão no olho de um mendigo.
Fotogafei o perdão.
Vi um paisagem velha a desabar sobre uma casa.
Fotografei o sobre.
Foi difícil fotografar o sobre.
Por fim cheguei a
Nuvem de calça.
Representou pra mim que ela andava na aldeia de braços com Maiakovski – seu criador.
Fotografei a
Nuvem de calça e o poeta.
Nenhum outro poeta no mundo faria uma roupa mais justa para cobrir sua noiva.
A foto saiu legal.

Manoel de Barros

5 Responses

  1. Vou roubar do seu blog, postar no meu, citar o Manoel e o seu! :)

  2. [...] Encontrado e surrupiado no blog “Escrito Expresso”. [...]

  3. Não há lugar para os poetas
    Nessas ruas e casas.
    Por isso eles flutuam
    Galgando as “nuvens de calças”
    E chovem a liberdade nua
    Sobre as cabeças estacionadas
    Em um chão que não cheira a chão
    Nem orelhas, nem faces
    Pois os vícios humanos não permitem
    E eles ainda não morreram…
    Os poetas chovem
    Nessas ruas e casas
    s i l e n c i o s a m e n t e JeanClaudio

  4. [...] Manoel de Barros é massa. Gosto muito. Eu nunca tentei essas coisas aí, não. Mas, vou tentar, quem sabe passo por lá também. Encontrado e surrupiado no blog “Escrito Expresso”. [...]

  5. Agonia

    Essa agonia da poesia,
    É nada mais
    Do que a busca
    Da saúde da alma.

    Poesia é uma agonia
    Que sempre bate à porta,
    Querendo entrar
    Para sair
    Com sua alma
    Espremida entrelinhas.

    Todas elas
    - Ciscos juntados
    Do teu tempo permitido.
    Tempo dos homens
    Tempo das palavras
    Tempo dos tempos
    De todas as portas
    Cores e luas.

    E esse costume nunca largo:
    Poesia
    Agonia
    Amor

    JeanClaudio
    20/11/08

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